07/02/2011

Waterloo - 18 de junho de 1815

Em 1814, Napoleão chegara ao seu limite. Perdera mais de 350 mil homens na marcha sobre a Rússia, uma das ações militares mais insensatas da História. Na Espanha, Wellington derrotara o seu exército e os seus aliádos espanhóis. Além disso, finalmente, os exércitos da Áustria e da Prússia estavam prestes a humilhá-lo. Mas Napoleão não era homem de fugir calado para o esquecimento. Quando abdicou e deixou de ser imperador, foi exilado como governador da minúscula ilha de Elba, ao largo da costa ocidental da Itália. Talvez por crueldade, permitiram-lhe manter o título que reivindicara para si. Muitas vidas teriam sido poupadas se ele e a sua guarda de honra tivessem ficado por lá. Mas, onze meses depois de lá chegar, uma fragata buscou-o e ele voltou à França.


O rei francês Luís XVIII enviou soldados com ordens para atirar nele. A reação de Napoleão ficou famosa: caminhou destemido na direção deles, abriu o casaco e disse. "Quem tiver coragem que mate o seu imperador!" Os soldados o saudaram e Napoleão os fez voltar e marchar sobre Paris. Em 20 de março de 1815, o rei francês fugiu e Napoleão voltou. O período de março a junho é conhecido até hoje como a "Guerra dos Cem Dias".

Com eficiência extraordinária, Napoleão reuniu um exército de 188 mil soldados regulares, 300 mil conscritos e mais um efetivo de apoio de 100 mil indivíduos. Além disso, tinha o veterano Exército do Norte em torno de Paris, com 124 mil homens.

Nessa época, o exército anglo-holandês de Wellington, com 95 mil soldados, estava em Flandres (na Bélgica) com o exército prussiano de 124 mil soldados do marechal Blücher. Os austríacos tinham 210 mil homens no Reno e outro exército de 75 mil homens na Ítalia. O exército russo de 167 mil soldados, sob o comando de Barclay, vinha pela Alemanha para atacar a França. Em vários pontos Napoleão também chegara ao seu limite, em 1815.

Ele partiu rapidamente contra os exércitos na Bélgica, na tentativa de esmagar os inimigos um ou dois de cada vez. Infelizmente para ele, as tropas de Wellington, num contra-ataque , retiveram um dos seus marechais em Quatre-Bras, ao sul de Bruxelas, impedindo o apoio de que Napoleão precisava para destruir os prussianos. Os homens de Blücher sofreram baixas terríveis quando encontraram Napoleão, em Ligny, mas ainda assim, conseguiram recuar em ordem. Napoleão não aproveitou a vantagem e Wellington pôde mover-se de Quatre-Bras para uma posição melhor, pronto para a batalha. Escolheu um morro chamado monte Saint-Jean, ao sul da aldeia de Waterloo. Era a noite de 17 de junho e chovia a cântaros.

Blücher dera a sua palavra a Wellington de que reforçaria a posição britânica. Mas Gneisenau, o segundo no comando, estava convencido de que Wellington não conseguiria defender o morro e partiria antes que os prussianos chegassem. Queria abandonar os aliados e coltar a Prússia. Apesar da exautão e dos seus próprios ferimentos, Blücher, de 72 anos, passou por cima dele e deu a seus homens a ordem de ajudar Wellington. É interessante que Gneisenau tenha organização a marcha prussiana de modo que as unidades mais distantes de Wellington partissem primeiro. Parece que sabia que assim atrasaria a sua chegada. No entanto, a unidade mais distante era o IV Corpo, do general von Büllow, uma das melhores tropas prussianas. A chegada dos prussianos obrigaria Napoleão a reagir bem na hora em que atacava o centro britânico. Isso foi fundamental para a vitória.

O terreno estava um lamaçal depois da chuva forte da noite anterior e Napoleão atrasou o ataque até que o chão começasse a secar. Ao meio-dia de 18 de junho, finalmente arremeteu, com os seus 72 mil homens contra os 67 mil de Wellington. Os soldados de Napoleão avançaram num falso ataque enquanto os canhões, os "belles filles" (lindas meninas), martelavam durante uma hora o exército de Wellington. À uma hora da tarde, 20 mil veteranos seguiram em linha rumo ao morro ocupado pelos britânicos. Também  tiveram que passar pelo fogo de artilharia e a carnificina foi horrível. Mas duas divisões veteranas conseguiram chegar ao alto do morro, numa feroz luta corpo-a-corpo. Foi um momento importantíssimo da batalha, porém, foi a cavalaria da Brigada da Casa Real e a da Brigada da União, comandadas pelo Conde de Uxbridge, que salvaram os ingleses, esmagando os atacantes franceses com uma carga morro abaixo.

As duas brigadas continuaram a carga pelo vale e atacaram os canhões franceses. Tomaram uns 20 deles. Quando, por sua vez, foram vencidos pelas reservas da cavalaria francesa, os cavalarianos, em sua maioria, exautos. No entanto, o estrago fora feito. O único corpo realmente poderoso da infantaria francesa que restava no campo de batalha era a elite: a Guarda Imperial.

Nessa hora, houve algumas ordens confusas nas linhas francesas. Wellington ordenou  que os seus homens recuassem 30 metros, para fora do alcance dos canhões franceses. O marechal Ney pensou que estavam se retirando e ordenou que uma brigada da cavalaria francesa atacasse. A sua ordem foi questionada e, numa reação irritada, Ney comandou-os pessoalmente e levou 4 mil cavaleiros a avançar sem apoio. Se nesse momento Napoleão mandasse a sua Guarda Imperial, é bem possível que Wellington perdesse a batalha. Mas ele percebera a aproximação dos prussianos e recusou-se a engajá-la na luta. Sem apoio, a cavalaria não conseguiu causar muito estrago nas formações quadradas britânicas. Foi repelida por salvas de tiros e os sobreviventes acabaram recuando. Os pesados canhões franceses abriram fogo novamente e mais soldados morreram no morro.

Às quatro da tarde, os prussianos já tinham chegado em grande número, encabeçados pelo IV Corpo. Ocuparam uma posição estratégica no flanco direito de Napoleão e tiveram de ser desalojados por soldados muitos preciosos dos regimentos da Nova e da Velha Guarda Imperial. Quando isso foi conseguido, já eram quase sete horas da noite. naquela época do ano, tão perto do alto verão, os dias eram longos e ainda havia luz quando Napoleão, finalmente, mandou a Guarda Imperial romper o
centro britânico. Os soldados usavam casaco azul-marinho e chapéu alto de pele de urso. Em toda a sua
história, nunca tinham recuado.

A Guarda Imperial marchou subindo o morro rumo a uma brigada de guardas da infantaria britânica comandada pelo coronel Maitland e uma brigada holandesa comandada pelo coronel Detmer. Salvas de tiros e uma carga de baionetas fizeram a Guarda Imperial recuar. Wellington mandou mais homens atrás deles enquanto tentavam se reorganizar e os derrotou. Os regimentos da guarda britânica conheciam muito bem a fama da elite napoleônica e levaram consigo, como lembrança, os seus chapéus. Estes chapéus altos de pele de urso ainda são usados até hoje por regimentos britânicos da guarda, como os granadeiros, galeses, irlandeses, escoceses e a Guarda de Coldstream.

Blücher atacou o flanco direito francês enquanto Wellington contra-atacava em peso. O exército francês desmoronou. Mais tarde, Blücher quis chamar a batalha de "La Belle Alliance", mas Wellington insistiu no seu antigo hábito de batizar as batalhas com o nome do lugar onde passara a noite anterior. Sendo assim, ela ficou conhecida como Batalha de Waterloo.

Napoleão voltou a Paris e renunciou pela segunda vez, em 22 de junho, antes de se render aos ingleses. O navio HMS Bellerophon, que tinha lutado no Nilo e em Trafalgar com o almirante Nelson, levou-o a bordo. É irônico que o Bellerophon tenha sido um dos navios que dispararam na nau capitânia de Napoleão, L'Orient, antes que ela explodisse na batalha do Nilo.

Napoleão foi levado para a ilha de Santa Helena e , até morrer, não a abandonaria mais. Waterloo foi a última batalha de Wellington, que chegou a ser Primeiro-Ministro em 1828.

Blücher morreu em seu leito, em casa, em 1819.

A França foi forçada a pagar indenização á Grã-Bretanha, á Àustria, à Prússia e à Rússia. Esses países reuniram-se em Viena para determinar o futuro da Europa. Nessas conversações, foi criada uma zona-tampão: um país neutro, cuja paz seria garantida pelos outros. Mais tarde, em 1830, quando se tornou totalmente independente, este país ficou conhecido como Bélgica. Um detalhe interessante: a bota impermeável de cano alto estilo Wellington recebeu este nome devido ao tipo de bota que Wellington popularizou. A princípio, era feita de couro; só depois passou a ser feita de borracha, como até hoje.